
Uma imagem que ilustra o amor silencioso e incondicional entre humanos e seus animais de estimação, inspirando a reflexão central da coluna sobre como o amor mais simples pode nos lembrar do que realmente importa. Às vezes é no silêncio do cuidado que o amor se revela na sua forma mais verdadeira.
Caro (a) leitor (a), nem sempre tenho uma história na manga, nem sempre a inspiração vem de bate-pronto ou conheço e vivo algo que me brilha os olhos a ponto de vir aqui compartilhar. A verdade é que nunca vivemos momentos de tanta polarização no mundo, em nossas vidas, dentro de casa. Vivemos cercados por más notícias e pouca coisa acaba nos dando motivos para nos inspirarmos.
Estamos na iminência de uma Terceira Guerra Mundial, índices de violência jamais registrados, feminicídio. Coisas ruins por todos os lados. No meio disso tudo me pego pensando no que posso compartilhar com você que possa tocar seu coração, algo que traga um conforto, aquele quentinho, sabe?
Acordei com uma música dos Titãs na cabeça, “Porque eu sei que é amor”, um primor que diz assim: “Porque eu sei que é amor. Eu não peço nada em troca. Porque eu sei que é amor. Eu não peço nenhuma prova”.
E fiquei pensando como essa talvez seja a definição mais simples e, ao mesmo tempo, mais profunda de amor. Porque quando a gente sabe que é amor, não existe cálculo, não existe barganha, não existe aquela contabilidade emocional que tantas vezes fazemos sem perceber. Não é sobre o que se recebe de volta. É sobre o que transborda.
Passamos boa parte da vida tentando entender o amor nas relações complexas, nos romances, nas expectativas, nos encontros e desencontros. Como se o amor precisasse sempre vir acompanhado de grandes declarações, provas ou promessas. Mas às vezes o amor aparece na sua forma mais pura justamente onde ele não precisa dizer nada. Ele simplesmente está ali. Sem cobrança, sem julgamento, sem memória das suas falhas.
Um amor que não te lembra do que você fez de errado ontem, que não guarda rancor, que não calcula se você merece ou não aquele gesto de carinho. Um amor que se alegra genuinamente com a sua presença, mesmo quando você chega cansado, irritado ou silencioso. Talvez seja por isso que, quando encontramos esse tipo de amor, algo dentro de nós amolece. A pressa diminui, a armadura cai um pouco, o mundo parece menos hostil.
Há cerca de vinte dias minha rotina mudou completamente. Uma pequena criatura que divide a vida comigo sofreu um acidente, precisou passar por um procedimento cirúrgico delicado e, desde então, perdeu a visão. Pelo menos por enquanto. Quem tem um animal de estimação sabe que eles não entendem exatamente o que aconteceu. De repente o mundo muda. Os sons ficam diferentes, os passos ficam inseguros, o medo aparece.
E então você se vê fazendo coisas que jamais imaginou precisar explicar. Dormir no chão da sala para que ela não se sinta sozinha. Ficar atenta a cada pequeno movimento, a cada tentativa de se orientar em um mundo que, de um dia para o outro, ficou escuro.
Quem já experimentou esse tipo de vínculo sabe que não existe esse “só”. Ali existe amizade, companhia, lealdade. Existe alguém que nunca chegou em casa de mau humor porque você demorou para responder uma mensagem. Alguém que nunca julgou suas falhas, nunca te cobrou perfeição, nunca te virou as costas porque você teve um dia ruim. Existe alguém que simplesmente fica feliz porque você entrou pela porta.
Talvez seja justamente isso que esteja faltando no mundo hoje. Em tempos em que tudo virou disputa, argumento, posicionamento, lado A contra lado B, talvez o que mais esteja em falta seja esse amor silencioso, despretensioso, quase invisível. Talvez seja justamente esse tipo de amor que ainda pode salvar um pouco da humanidade em nós.
Deixe o seu comentário!