
Trabalhadores do Centro de Florianópolis relatam como seria com um dia a mais de folga. Lauren Cardoso, que trabalha na escala 6×1 desde os 13 anos, inicia suas atividades às 8h e termina após as 19h. Em seu único dia de folga na semana, a vendedora de malas no camelódromo precisa escolher entre descansar, cuidar da casa, estudar ou passear. Ela menciona: “Eu acho que falta tempo porque, na maioria da semana, a gente passa trabalhando, cuidando das tarefas de casa ou estudando. É bem corrido durante o dia a dia. Se eu tivesse um dia a mais de folga, com certeza eu iria para a praia, descansaria um pouco ou só dormiria, já que a semana é bem puxada.”
A colega Luana Oliveira, também de 18 anos, enfrenta uma rotina similar. Apesar de morar em Florianópolis há sete anos, frequentemente sente que seu dia livre é consumido por obrigações domésticas. “Fico mais tempo aqui do que em casa. O tempo que passo em casa eu durmo. Pago aluguel para o meu cachorro”, ironiza. Essas experiências refletem a realidade dos trabalhadores CLT do comércio varejista, onde 93,46% atuam por mais de 40 horas semanais, segundo o Ipea.
O sistema atual de escala de trabalho, que é pauta de discussão em Brasília, é visto como sinônimo de exaustão. As jovens de Florianópolis estão entre as trabalhadoras que podem ser impactadas pela proposta de mudança na legislação apresentada pela Câmara dos Deputados e pelo Governo Federal. Atualmente, a Constituição prevê até 44 horas semanais, mas novas propostas sugerem a redução da carga horária para 40 ou 36 horas.
Essa demanda ganhou força com o movimento VAT (Vida Além do Trabalho), que emergiu nas redes sociais cobrando mais tempo para lazer e descanso. A deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP) apresentou uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) buscando essa mudança. Apesar de apresentar benefícios, a proposta enfrenta resistência de entidades empresariais que temem perda de empregos e impactos econômicos.
Apesar das discussões, um levantamento do Ipea aponta que o fim da escala 6×1 aumentaria o custo da hora trabalhada em 7,84%, um aumento que é considerado irrelevante. No comércio varejista, mesmo com o incremento de 9,26% no valor da hora trabalhada, o impacto no custo total do setor seria de apenas 1,04%.
Os pequenos negócios, que geralmente possuem equipe reduzida, enfrentariam desafios maiores com a mudança da jornada. Por outro lado, 47% dos donos de micro e pequenas empresas não acreditam que a proposta trará impacto negativo. Décio Lima, presidente do Sebrae, reforça a importância do diálogo em torno das mudanças na jornada.
No lado oposto, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) discorda das estimativas do Ipea, apontando que a redução da jornada para 36 horas poderia resultar em um aumento de 25,1% nos custos operacionais no setor industrial. Para a indústria de Santa Catarina, o presidente da Fiesc, Gilberto Seleme, aponta uma possível perda de 41,4 mil empregos com a redução da jornada.
Com uma nova perspectiva, Júlia Macedo, proprietária de uma padaria em Florianópolis, decidiu adotar a escala 5×2. Para ela, essa mudança melhorou a motivação de seus funcionários e o atendimento ao público. A experiência de empreendedores que implementaram a escala 5×2 reflete uma tendência que pode beneficiar tanto os trabalhadores quanto a eficiência do negócio.
Em meio a essas mudanças, os trabalhadores permanecem cientes de que um dia a mais de folga pode afetar seus salários. A negociação entre empregadores e empregados se torna essencial para encontrar um equilíbrio entre qualidade de vida e necessidades econômicas.
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