Decisões Arbitrárias e Seus Impactos em Santa Catarina

Algumas decisões chegam com o peso da lei e outras que chegam pela imposição da caneta de quem pisa sem olhar o chão. Em diferentes cantos da Ilha de Santa Catarina, cresce um silêncio inquieto, daqueles que antecedem a pergunta inevitável: até quando decisões arbitrárias vão atravessar comunidades inteiras sem escutar quem sempre viveu ali? Existe uma memória que não está nos papéis, mas nos caminhos abertos à mão, no ritmo das marés, nas casas erguidas com o tempo e na sabedoria que passa de geração em geração. Uma memória que não se mede em mapas, mas em pertencimento.

Na Praia dos Naufragados, por exemplo, um casal de idosos com mais de 80 anos, moradores mais antigos daquela localidade, foi arrancado de um lugar que não era apenas moradia, mas continuidade de vida. Como se décadas pudessem ser desfeitas por um despacho. Como se história fosse detalhe. Pescadores viram um rancho centenário cair por terra e foram obrigados a retirar as presas apetrechos de pesca e as redes ficaram na areia como cicatrizes na alma.

Mais adiante, na Ilha do Campeche, o ir e vir foi interrompido sem comprovação científica apenas por uma “orientação de um órgão federal” com a desculpa de preservar a safra da tainha. O transporte, que também é sustento, virou restrição e até pessoas que ajudam a preservar a ilha há anos, durante décadas, podem ser impedidas de acessar o local. Uma situação nunca antes vista na história de nossa cidade e que nem mesmo levou em conta a opinião de quem respira aquele local. Preservar, sim, mas a que custo e para quem?

E não para por aqui, em um dos costões da Ilha, junto ao mar, onde o tempo se mede em redes lançadas e por linhas e anzóis, um pescador foi multado por outra “entidade federal” por exercer um saber que conhece há anos. Uma prática autorizada por normas estaduais, mas negada por outra lógica, distante, rígida e desconectada.

É nesse desencontro que mora o conflito. A natureza pede cuidado, isso é indiscutível, contudo existe algo que também precisa ser preservado: o vínculo entre as pessoas e o lugar. Porque quem vive o território não é inimigo dele. Há ciência que diz isso. Há história que prova. Há vida que insiste. E ainda assim, o que se vê são decisões empurradas de cima para baixo, sem escuta, sem ponte, sem encontro. Talvez o problema não esteja na intenção de proteger, mas na forma de fazer. Porque proteger não pode ser sinônimo de apagar. Não pode ignorar quem já cuidava antes mesmo de qualquer norma existir. Não pode transformar tradição em infração. O pior é que quem deveria ver isso fecha os olhos.

A ilha respira e não apenas pela mata, pelo mar ou pelos ventos. Ela respira pelas pessoas que a habitam, que a conhecem, que a sustentam com gestos invisíveis. E toda vez que uma decisão arbitrária ignora isso, algo se rompe. Não apenas no território, mas na própria ideia de cuidado. Acredito que seja hora de lembrar que preservar também é escutar. Que proteger também é reconhecer. E que nenhuma decisão será realmente justa enquanto não enxergar, de verdade, quem sempre esteve ali.

Existem decisões que chegam como maré alta: avançam, ocupam tudo, e deixam para trás um silêncio difícil de explicar. A recente medida da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Florianópolis, ao proibir o acesso à Ilha do Campeche durante a safra da tainha, soa assim, abrupta, como se o diálogo tivesse sido engolido pelo…

Redação Notícias Floripa
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