
Algumas expressões e gírias manezinhas estão sendo “esquecidas” pelos mais jovens. Expressões como “ixtepô”, “arrombassi” e “dazumbanho” ainda ecoam nos bairros tradicionais e integram o vocabulário de quem nasceu em Florianópolis. Contudo, parte desse “dialeto manezês” vem se perdendo com a mistura de sotaques na capital catarinense.
O jeito de falar dos florianopolitanos tem origem na colonização açoriana e é considerado um dos principais elementos culturais da cidade. No entanto, palavras e expressões que antes eram comuns entre diferentes gerações já não são reconhecidas por algumas crianças e adolescentes de hoje em dia.
A professora Isabel Monguilhott, que coordena o Projeto Varsul (Variação Linguística na Região Sul do Brasil), explica que os termos mais antigos não são mais tão falados nas casas dos manezinhos, mas resistem através dos memes, da mídia e dos projetos de instituições culturais. “Algumas expressões continuam vivas, até por causa da internet e dos memes, como ‘ixtepô’ ou ‘bucica’. Mas outras, como ‘cagaço’, ‘ladino’, ‘arrombasse’, ‘estrovar’ e ‘intisicar’, já não são mais conhecidas pelos mais jovens”, afirma.
A transformação do sotaque em Florianópolis está diretamente ligada ao crescimento da cidade e à chegada de moradores de outras regiões do Brasil. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados em 2025 mostraram que Grande Florianópolis teve o maior crescimento do Brasil, com aumento de 2,24% em comparação com 2024, chegando a 1,5 milhão de habitantes.
Atualmente, o jeito manezês de falar é motivo de orgulho entre os moradores da Ilha da Magia. Contudo, durante muitos anos, os nativos foram estigmatizados pelo sotaque arrastado e expressões que só se ouviam na região. A pesquisadora destaca que o estigma não está no sotaque em si, mas na forma como determinados grupos sociais são percebidos.
Com o passar do tempo, esse cenário começou a mudar. A partir da década de 1980, iniciativas culturais ajudaram a valorizar a identidade local. Um exemplo foi a criação do prêmio Manezinho da Ilha, idealizado por Aldírio Simões, que passou a reconhecer figuras ligadas à cultura da cidade. Na década seguinte, o reconhecimento nacional do tenista Gustavo Kuerten também contribuiu para reforçar o orgulho dos manezinhos.
Apesar dos avanços, o preconceito linguístico ainda existe. Por isso, projetos como o Projeto Varsul também atuam nas escolas, com foco na conscientização. A pesquisa é baseada na sociolinguística, área que estuda a relação entre linguagem e sociedade.
Neste ano, com apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), os pesquisadores voltaram a entrevistar participantes ou pessoas com o mesmo perfil das gravações feitas na década de 1990.
O dicionário manezinho foi criado por Douglas Ferreira, que percebeu a importância de dar representatividade ao cotidiano do manezinho autêntico. A obra, contendo mais de 11.500 palavras, oferece explicações sobre termos variados, como “saragaço”.
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