
Os moradores da servidão Joaquim Claudino Matos, no Saco dos Limões, estão com medo de um garapuvu centenário que apresenta sinais de instabilidade e já está encostado em uma das casas. A árvore, no local há mais de 50 anos, é nativa e símbolo de Florianópolis.
Alexandra Afonso Ferreira, de 22 anos, mora no terreno onde está o garapuvu e diz que a situação piorou nos últimos anos com a exposição das raízes e a queda frequente de galhos.
“Não tememos o bem material, mas pela vida das pessoas. Crianças passam aqui indo para a escola. E eu estou grávida, fui duas vezes para o hospital com ansiedade quando tem tempestade.” Se a árvore cair, pode atingir diversas residências”, diz.
Pelo tamanho dela, pode pegar pelo menos umas seis casas. A dona Maria é a que está mais em risco”, diz Vitória, referindo-se à aposentada Maria Edília Correa, de 72 anos, que já escapou por pouco de um acidente. “Caiu um galho grande no meio da minha casa. Quebrou tudo. Eu tinha saído da mesa, senão, tinha caído em mim”, relata.
Quem também passa diariamente pelo local é o aposentado Miguel Flores Patrício, morador do bairro há décadas. Ele diz que evita circular perto da árvore quando venta. “Se ela tombar, vai pegar várias casas. Já chamamos tudo quanto é órgão, mas ninguém resolveu”, complementa.
Segundo o município, como é um terreno particular, a poda é responsabilidade do cidadão e pode ser feita com requisição autodeclaratória, seguindo as regras. O município, inclusive, acaba de lançar um manual para trazer mais clareza sobre o que deve ser feito nessa e em outras situações.
A Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) iniciou um amplo trabalho de diagnóstico da arborização nas vias públicas de Florianópolis. A iniciativa faz parte do primeiro Plano Municipal de Arborização Urbana e resultou no lançamento do Manual de Arborização Urbana da Capital, com orientações técnicas para o plantio e manejo de árvores na cidade.
O engenheiro agrônomo da Floram, Luiz Antônio dos Santos Júnior, explica que o trabalho surgiu a partir de um inventário focado no Centro, que apontou um déficit de árvores nas áreas mais urbanizadas.
“Temos boa cobertura de vegetação nos morros, mas nas áreas centrais e mais densamente urbanizadas existe uma deficiência”, afirma.
O levantamento mostrou que, enquanto algumas regiões de morro do Centro têm 32% de cobertura arbórea, nas vias públicas o índice cai para 7%. “É justamente onde as pessoas caminham, onde vão para o comércio e fazem suas atividades. Precisamos tornar a cidade mais ‘caminhável’ e confortável, inclusive diante dos eventos climáticos cada vez mais intensos”, explica ele.
O diagnóstico também identificou outro desafio: a presença de espécies exóticas, algumas delas invasoras. Muitas foram plantadas no passado por crescerem rápido e oferecerem sombra, mas nem sempre são adequadas para o ambiente urbano.
A partir dessas constatações, técnicos da Floram criaram um grupo de estudos que trabalha em propostas para melhorar o planejamento da arborização da cidade. Uma das primeiras iniciativas foi o projeto “50 Árvores de Floripa”, que identificou espécies nativas com potencial para uso urbano.
“São 50 espécies que podem ser utilizadas na arborização urbana. A ideia é valorizar o patrimônio natural que temos e adaptar as escolhas às condições urbanísticas da cidade”, explica o agrônomo Santos.
O novo manual surge como um guia prático voltado tanto para técnicos quanto para a população. O documento reúne orientações sobre escolha de espécies, critérios de plantio e cuidados com a arborização.
Paralelamente, a Floram faz um mapeamento preliminar das árvores existentes nas vias públicas. Até agora, mais de 17 mil árvores foram registradas, mas o número ainda é parcial. A estimativa é que Florianópolis tenha entre 25 mil e 30 mil árvores nas ruas e avenidas.
Após a conclusão do diagnóstico, o município vai analisar quais precisam ser substituídas. “Depois vamos partir para um diagnóstico mais detalhado, analisando espécie, porte, conflitos com rede elétrica, edificações e outros fatores”, explica o agrônomo.
A etapa seguinte prevê a aplicação de uma metodologia de amostragem e a contratação de equipes de campo para avaliar individualmente as árvores. O resultado servirá de base para programas e diretrizes do Plano Municipal de Arborização.
“O diagnóstico vai indicar quais bairros são mais deficientes em arborização e onde devemos concentrar as primeiras ações, inclusive com projetos de revitalização de calçadas e diálogo com concessionárias de energia para adequação da rede elétrica”, afirma.
O plano também deverá passar por consultas públicas. A proposta é alinhar a política municipal às diretrizes do Plano Nacional de Arborização Urbana, lançado no ano passado, mas respeitando as características específicas de Florianópolis.
“É importante trabalhar um plano com a identidade da cidade. Florianópolis tem peculiaridades por ser uma ilha e regiões com diferentes padrões de urbanização. Precisamos planejar a arborização pensando nessas características e no futuro da cidade”.
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