
Envelhecer também é sobre amizade, passagem do tempo e as relações que permanecem ao longo da vida. Nem todas as amizades atravessam todas as fases da vida. Às vezes, envelhecer também é descobrir quem continua caminhando ao nosso lado.
Meu desabafo é sobre o ciclo natural da vida. Nascer, crescer, envelhecer e morrer. Não estou falando de casos atípicos, doenças ou fatalidades que às vezes nos acometem. “Ah, mas se tem saúde tem tudo”. Sim, tem. Mas isso não quer dizer que a gente goste de se ver pelancudo(a) em frente ao espelho.
O envelhecer não nos toca apenas na estética ou na aparência física. O passar dos anos também traz uma tristeza silenciosa ligada às perdas. À medida que vamos envelhecendo, vamos perdendo pessoas ao longo do caminho. Perdemos avós, pais, os pais dos amigos(as) e, quando nos damos conta, já estamos na fase de começarmos a perder amigos(as).
E quando falo de perda, nem sempre me refiro à morte, aquela perda irreparável. Milton Nascimento escreveu e cantou lindamente que “Amigo é coisa pra se guardar Debaixo de sete chaves Dentro do coração”. Mas a vida, com o passar do tempo, também nos mostra que nem todas as amizades conseguem atravessar todas as fases da vida.
A psicologia explica que uma das dificuldades do envelhecimento não é exatamente a solidão, mas a percepção de que alguns vínculos simplesmente deixam de ter a mesma força de antes. Às vezes não há brigas, não há rompimentos claros. O que acontece é mais sutil. As relações começam a se tornar desiguais.
Estudos sobre relações humanas mostram que vínculos duradouros dependem muito da reciprocidade. Quando o cuidado circula entre as pessoas, a relação se fortalece. Quando ele fica concentrado apenas de um lado, a conexão começa a se desgastar até desaparecer quase sem percebermos. As pessoas se afastam.
Talvez por isso o envelhecimento funcione também como uma espécie de filtro natural. Algumas pessoas seguem caminhando ao nosso lado. Outras vão ficando pelo caminho. Nem sempre por falta de carinho ou história. Muitas vezes é apenas a vida reorganizando prioridades, rotas e interesses.
Percebemos que algumas presenças que pareciam permanentes já não ocupam o mesmo espaço na nossa vida. Mas talvez exista também algo bonito nisso tudo. Porque o mesmo tempo que leva algumas pessoas embora também ilumina com mais clareza quem realmente permanece.
Talvez envelhecer seja também aprender a reconhecer melhor quem merece mesmo um lugar dentro dessas sete chaves de que fala a música. Falamos muito sobre o que o envelhecimento tira da gente. Mas talvez devêssemos pensar também no que ele pode trazer. Lucidez, capacidade de escolher melhor as relações, consciência sobre o valor do tempo.
Você já parou para pensar onde a velhice pode te levar? No que ela pode tirar de você, sim. Mas e no que ela pode revelar, ensinar e até trazer de volta para a sua vida? Talvez envelhecer não seja apenas perder coisas. Talvez seja sobre aprender, finalmente, o que realmente vale a pena guardar dentro do coração.
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