Uma nova pesquisa revela que o endividamento segue como um dos principais desafios para os brasileiros. De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego e do Instituto Datafolha, 46% da população adulta está inadimplente, quase metade do país convivendo com restrições no nome. O cenário é agravado por dois fatores persistentes: a desigualdade salarial entre homens e mulheres e o alto custo do crédito. Mesmo em funções equivalentes, mulheres recebem, em média, cerca de R$ 3.900, enquanto os homens ultrapassam os R$ 5.000 mensais. Essa diferença de renda contribui diretamente para o aumento da vulnerabilidade financeira, especialmente entre elas.
Para a economista Carla Bene, da Fundação Getulio Vargas, o quadro é estrutural. Segundo ela, o endividamento elevado deixou de ser pontual e passou a integrar a rotina das famílias brasileiras, pressionando o orçamento doméstico de forma contínua. A dificuldade para equilibrar as contas também aparece nas estratégias adotadas pela população. Levantamento do Datafolha, realizado em 117 municípios com 2.002 entrevistados, mostra que 48% dos brasileiros buscaram alguma forma de renda extra recentemente. Além disso, 36% afirmam que o ganho atual não é suficiente para manter o padrão de vida, enquanto apenas 6% dizem ter renda mais do que suficiente.
Entre as famílias de baixa renda, a situação é ainda mais crítica: 75% relatam que o dinheiro não cobre nem as necessidades básicas. O aumento do custo de vida, especialmente após a pandemia, continua impactando itens essenciais como alimentos e bebidas, mesmo com sinais de controle na inflação geral.
Outro fator de pressão é o crédito caro. Apesar da redução da taxa básica de juros, o rotativo do cartão de crédito ainda pode atingir 436% ao ano, segundo o Banco Central. Para Bene, medidas mais rígidas são necessárias, como a limitação dos juros cobrados e maior fiscalização sobre financeiras e fintechs. As mulheres enfrentam ainda um obstáculo adicional: a chamada “taxa rosa”, que encarece produtos voltados ao público feminino em até 20%. Somada à menor remuneração média, essa diferença contribui para que elas sejam maioria entre os inadimplentes no país, conforme dados do Serasa.
No campo do trabalho, cresce o debate sobre a jornada. A escala 6×1, seis dias de trabalho para um de descanso, ainda predomina em setores com menor remuneração. A possível migração para o modelo 5×2 exigiria mudanças estruturais, especialmente nos serviços. Ainda assim, especialistas apontam que o principal entrave segue sendo a precarização das relações de trabalho, sobretudo para quem ganha até dois salários mínimos.


